O balanço dos dias ou quando sabes que estás sempre a tempo de mudar.

Uma grande parte de nós tem o hábito de reflectir de uma forma mais cuidada sobre a vida e sobre metas e propósitos, quando o fim do ano se aproxima ou quando Janeiro já deu o ar da sua graça. De facto, o primeiro mês do ano é um mês difícil. As festas já se foram, as razões para celebrar também e parece que deixa de fazer sentido ainda ser Inverno e as temperaturas estarem quase a baixo de zero. Mas porque é que não chega logo o Verão?? Sempre podemos dizer que estão cada vez mais perto hurray! Mas se o Verão surgisse daqui a um par de dias, entrávamos todos em parafuso, porque não tínhamos feito nada para que este ano valesse a pena, nada do que escrevemos na lista e que já podíamos rer riscado ao menos uns quantos ítens. Às vezes só apetece começar de novo, mudar de canal. Infelizmente isso não é possível porque se trata da vida real.

Já que a vida é como é, e em vez de tratarmos de enterrar a cabeça na areia como a avestruz, podemos ir fazendo o balanço do que correu menos bem no ano anterior – sim, acreditem que estamos sempre a tempo. Nunca ouviram a expressão “Mais vale tarde do que nunca?”. Podemos aproveitar para repensar no que pode ser mudado e do que deve ser mantido e reforçado, mesmo que por vezes não seja fácil, mesmo que apeteça desistir.

O regresso às rotinas, o fim das férias natalícias (que, cá para nós, são cada vez mais pequeninas, mas onde as mesas, cheias de petiscos e iguarias, continuam a estar cada vez mais fartas), o adeus às noites de jantares de amigos, a felicidade das coisas pequenas, mas que nos dizem tanto, como estarmos em família ou o sorriso de uma criança a desembrulhar um presente, fazem com que o momento seguinte seja de alguma frustração, amargura, desalento… tristeza. Mas se resolvermos ver o copo meio cheio, também pode ser o momento propício para sermos os nossos próprios coaches. Correu menos bem? Podemos fazer com que corra melhor? Claro que sim! Vamos lá então fazer para que seja diferente. Temos bons momentos aos quais nos agarrar? Então vamos a isso! Hoje resolvi vir deixar-vos um desafio. Porque não fazer o balanço do primeiro mês do ano? E talvez até compará-lo com os últimos 3 meses de 2016. Talvez estejamos a sentir que 30 dias já lá foram e ainda não se passou nada de especial, que nem um item sequer riscámos da lista de coisas a fazer. Ao mesmo tempo vamos arranjando desculpas atrás de desculpas. “1 mês? O que é que é isso? Ainda temos mais 11 pela frente e cerca de 6 até ao Verão”. Pois é, não vou mentir. Não deixam de ter razão. Quem nunca pensou deixar para amanhã o que podia fazer já? Que atire a primeira pedra quem nunca procrastinou. Mas a vida passa num flash e num abrir e fechar de olhos já estamos em Fevereiro, logo logo será Março… depois num plim a Primavera já voou e o Verão num ápice também vai acabar.

Da lista que escrevemos, dos objectivos que traçámos, seja por escrito ou mentalmente – embora aconselhe vivamente a que o façam por escrito – algo que tanto queriam conseguir, acabou ou não por ser cumprido? Muitas vezes apenas vivemos o dia a dia, como se amanhã fosse sempre perto demais, em que podemos deixar sempre tudo em standby, porque ainda falta muito para o Verão, mais ainda para o fim do mundo e nem vale a pena pensar no ano que vem Queixamo-nos vezes sem conta que os dias voam e que não temos tempo para nada, mas simultaneamente vivemos como se tivéssemos sempre tempo para tudo, e este trabalho de reflexão, que é imperativo que seja visto como uma necessidade básica, vai sendo adiado e adiado e adiado, utilizando muitas vezes o pouco tempo que tempos, para nos aborrecermos com questões que só lembram ao diabo. 2017 já vai no segundo mês de vida e, a verdade, é que a vida não se repete. Logo fazemos, dizemos nós. Deixamos sempre para depois tudo o que tem a ver com pensarmos sobre nós próprios, encetarmos mudanças nesse sentido e formularmos pequenos passos – baby steps – que nos ajudarão a chegar mais longe. Deixamos constantemente para depois. Até que nos apercebemos que perdemos tantas coisas, tantos momentos mágicos, tantas oportunidades únicas, porque o depois nunca chegou. O depois veio sempre tarde demais.

E tudo porque preferimos não arriscar. Mesmo quando a maior desculpa, que não deixa de ser plausível, é a falta de tempo. Todos nós sabemos, aqui que ninguém nos “ouve”, que o que mais nos falta não é sequer o tempo, mas sim a coragem de arriscar, de fazer diferente, de mudar. Arrisco amanhã, faço diferente para a semana, mudo quando tiver de ser. E se possível, ainda dizemos isto com a boca cheia de certezas, para enganar o medo de não conseguirmos ser felizes. Mas nunca deixes de assumir, por mais que doa, que a escolha é tua e só tua. Podes não poder mudar o que te acontece na vida, mas podes sempre alterar a forma como vês o que te acontece e a forma como queres reagir aos infortúnios. Isto é libertador, não é? Mas ao mesmo tempo traz uma responsabilidade enorme. Se és livre para determinar o teu futuro, passas a ser ainda mais responsável por ele. Uau!!! Fazer coisas é um compromisso que todos tempos connosco próprios. Ser feliz é acima de tudo uma decisão. Uma decisão e um estado de espírito. Lembra-te sempre, por mais que S. Pedro esteja a ficar com sinais de demência, o Inverno, a chuva e o frio só acontecem lá fora. Dentro de ti estará sempre o tempo que tu quiseres.

No fim deste ano serás o que viveste. Serás até o que não viveste. Serás o que sonhaste, o que ambicionaste, o que desejaste, mas, essencialmente, serás o que trabalhaste e o que te esforçaste para ser. E lembra-te também, mesmo que o balanço dos dias não esteja a ser o mais positivo, que podes sempre tentar outra vez. Olha para a lista com olhos de ver, cria pequenos passos, mas exequíveis, e que possam ir sendo avaliados e reavaliados semanalmente. Ainda te faltam alguns meses para o Verão e mais outros tantos para 2018. Agora depende de ti quereres ver o copo meio vazio e decidires não o voltar a encher ou, pelo contrário, fazer limonadas com os limões que a vida te teu, ou laranjadas ou morangoskas ou até bolo de chocolate – light, sempre light.

O que queres mesmo fazer antes de 2017 terminar? Vamos a isso? Vá lá. Não tenhas medo de arriscar.

Sofia Arriaga

Psicóloga clínica, Professora Universitária, Terapeuta familiar e de casal e Coachee