Gostava de ser mais nova. Não muito mais nova, mas mais nova. Gostava de ter a idade que tenho, mas parar por aqui. Gostava que não tivéssemos idade e a idade dependesse do nosso estado de espírito. Apenas isso. Gostava de ser adolescente para decidirem tudo por mim. É engraçado que quando somos miúdos achamos que crescer é o máximo, mas não é bem assim. Gostava de gostar de mim. Gostava de viajar lá para trás quando me desse na real gana. Nos dias não voltava a ser criança outra vez. Ou uma teen irreverente, que anda de acelera e recebe x por mês. Há dias em que gostava de não ter filhos. E outros em que gostava de ter ainda mais filhos. Gostava de ser médica. Gostava de ser produtora discográfica, realizadora de filmes underground, dançarina de ballet clássico, publicitária ou trapezista no Chapitô. Gostava de ser cantora ou barwoman em NY ou guru em Katmandu. Gostava de ir a Tokyo ou à Conchinchina ou a sítios ainda mais improváveis, a terras difíceis de imaginar. Gostava de conhecer o mundo inteiro. Gostava que fosse obrigatório conhecer, sair do casulo, ganhar espaço, voar. Gostava de ser gira todos os dias. Ou, pronto, dia sim dia não. Gostava de não perder o norte, seguir o foco, não desistir – isso inclui as idas ao ginásio – e dizer menos vezes “não”. Gostava de saber quem sou. Gostava de perceber porque é que há tanta maldade, egoísmos, invejas, raivas, sentimentos mesquinhos. Gostava de escrever outro livro. Gostava de ser uma escritora de renome. Gostava de viver em Buenos Aires, Chicago ou em Berlim. Gostava de ser actriz. Gostava de começar e acabar o pós-doutoramento. Só porque sim. Gostava de ter muitos amigos. Gostava de ter poucos, daqueles à séria, que não nos abandonam à primeira contrariedade. Gostava de ter uma casa senhorial na cidade. Gostava de mudar de cidade. Gostava de mudar de vida. Gostava de viver várias vidas. Gostava de ser rica. Gostava de não ter um chavo e de não me importar nada com isso. Gostava de ter mais tempo. Gostava de ler mais e mais e mais. Gostava de ter uma memória excelente e de não me esquecer do que li. Gostava de tocar baixo. Gostava de tocar piano ou guitarra ou saxofone. Alto, muito alto. Gostava de falar mandarim e cantonês. Galego e mirandês. Gostava de ser advogada. Gostava de ser o Donald e dizer You’re fired! antes de ele ser eleito presidente do States. Gostava que esse triste episódio não tivesse passado de um pesadelo ou que fosse apenas um filme com muitas nomeações para os Óscares, tal a magnitude irrealista do enredo. Gostava de ser diplomata ou deputada. Gostava de não sofrer tanto pelo que não vale nada. Gostava de aceitar. Gostava de acreditar que era feliz. Gostava de poder passar um Inverno num sítio quente. Gostava de fazer mais voluntariado. Gostava de fazer a travessia do canal da Mancha a nado. Gostava que nunca acontecesse nada de mal aos meus filhos. Gostava que não me acontecesse nada de mal a mim para poder vê-los crescer, namorar, casar, ter filhos. Gostava de ter um humor mais cáustico, ou sarcástico ou qualquer coisa do género in between. Gostava de ser mais independente. Gostava de ter o cabelo mais curto ou mais comprido ou assim-assim. Gostava de ser uma Evita, uma Che ou uma Madre Teresa. Ou um Andrew Zimmern, um Anthony Bourdain ou um Gordon Ramsay. Gostava de me desfazer de todas as malas e comprar “a” mala. O mesmo com os sapatos. O mesmo com os papéis. And so on and so on and so on. Gostava de ser mais arrumada. Gostava de ser menos dispersa e menos stressada. Gostava que a Concha ficasse com os caracóis loiros que tem agora. O olho azul já era. Gostava que o Manel nunca perdesse as covinhas que faz na cara e ainda os seus sinais via láctea. Gostava que a adolescência dele não fosse tão chata. Gostava que o Afonso se encontrasse, que fosse sempre feliz como já foi, apesar do que a vida já lhe reservou. Gostava que fosse mais dedicado e que encontrasse o seu caminho e me deixasse ajudá-lo. Gostava que o Vicente fosse sempre muito meu amigo e que nunca ficasse trinca-espinhas como os manos. Gostava que ele se tornasse o craque de futebol que sonha ser, embora eu não perceba um chavo em relação ao desporto rei. Dizem que ele tem queda e eu aceito. Gostava simplesmente que ele fizesse sempre aquilo para o qual tem jeito. E também gostava que não me destruísse a casa, com tanto salto, tantas placagens, tanto pontapé de frente e de lado. Gostava que eles não fossem tão índios. Gostava que a Sushi ficasse sempre connosco e se tornasse menos ninja – até a gata é difícil, pobrezinha. Gostava que fizéssemos ainda mais coisas juntos. Que ríssemos muito e que eu não andasse sempre tão preocupada. Gostava que certas palavras e certas memórias não queimassem com ferro em brasa. Gostava de minimizar esta angústia que tenho cá dentro. Gostava de ser mais tolerante e calma.  Gostava de não explodir com quase nada. Gostava até de ser resignada. Gostava de aproveitar mais cada momento. Gostava de gostar mais de algumas coisas ou pessoas ou cenas. Gostava de não gostar de outras. E é isto. E é assim. Cheia de contradições que por vezes fazem todo o sentido e outras vezes sentido nenhum.

E tu? O que é que tu gostavas? Já pensaste nisso?

Sofia Arriaga

Psicóloga clínica, Professora Universitária, Terapeuta familiar e de casal e Coachee